Não existem pessoas gordas, não existem mulheres gordas, nenhuma lição nos foi ensinada em nenhuma escola de arte acerca de seus corpos. As gordas flutuam entre o não-ser e um ser-mítico, um ser-fetichizado. Um ser-não-sendo. Os cânones (que deveria estar mortos e enterrados mas ainda suscitam grandes discussões) negam os corpos gordos.
Toda vez que uma pessoa gorda é retratada, em qualquer linguagem artística, ela é retratada dentro da mesma lógica das pessoas magras. Os ângulos são os que favorecem a magreza. As linhas buscam curvas perfeitas. A gordura é a gordura aceitável, ou é a gordura velada. As cores lhes são negadas. Ou são aceitas para retratos fetichizantes. Não há espaço para a busca da verdade gorda, de uma estética gorda.
A estética gorda é um grande mistério, ela se esconde embaixo de peitos caídos até o umbigo, em celulites que provocam tremor indesejável ao traço. Ela se esconde entre bundas que escondem o mundo. Está no meio dos lábios vaginais ocultos pelas coxas grossas. A estética gorda se esconde. A estética gorda se escondeu por tempo demais. É hora de parar de se esconder e descobrir-se.
{...}
Este é o primeiro rascunho que busca colocar no mundo o projeto. Longe de ser um manifesto, essas primeiras estrofes de um verso-imagético querem empoderar primeiro a mim, para que eu saia ao mundo e assuma que a luta por uma estética gorda é minha... é artística, é política. E é também por mim.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Como encontrei um deus no cemitério, ou como se meter em roubada por homens
Deitada na cama hoje, com meus 28 anos, minha mente fez uma associação com motivações nebulosas que me levou a um episódio excêntrico da minha adolescência excêntrica. O encontro com um deus do cemitério.
Lá pros meus 15, 16 anos, eu levava a ideia de ser gótica bem a sério, então além de usar pancake branco pra ir pra escola de manhã eu costumava frequentar cemitérios cerca de uma vez por semana. Não é algo que eu me orgulhe em contar até porque cada vez gosto menos de cemitério e nos últimos anos em todas as visitas fui me despedir de alguém importante, então não vejo a menor graça nesse rolê.
Mas voltando à minha história. Tinha um cara e eu queria ficar com ele. Quase tudo na minha vida nos últimos, sei lá, 17 anos, pode se reduzir a esta frase, é só colocar qualquer complemento esdrúxulo que certamente terá acontecido. Como por exemplo: "Tinha um cara e eu queria ficar com ele. Então larguei a faculdade e mudei de estado"; "Tinha um cara e eu queria ficar com ele. Então aceitei um acordo de relacionamento humilhante."; "Tinha um cara e eu queria ficar com ele. Então eu trabalhava pra sustentar os prazeres dele." Sugiram outras combinações que eu confirmo se forem válidas.
Nesse caso, tinha um cara e eu queria ficar com ele. E ele me chamou pra ir no cemitério da Vila Mariana com ele. Ele e mais alguém, não lembro quem era o outro alguém porque, afinal, não queria ficar com o outro alguém.
Então tinha um cara, eu queria ficar com ele e ele me chamou pra ir no cemitério da Vila Mariana passar a noite bebendo vinho, conversando, fumando cigarros de cravo e fazendo qualquer outra coisa que os góticos fazem em cemitérios. Pra quem nunca participou deste tipo de rolê pode parecer bastante mórbido e a verdade é que é mesmo, mas o que não é mórbido na adolescência. Mas então esse cara, com que eu queria ficar e que me levou pro cemitério decidiu que eu era uma pessoa digna de saber o seu verdadeiro segredo: ele era a reencarnação de um deus.
Não me perguntem que deus que ele achava que era, obviamente que eu não me lembro, assim como não me lembro de praticamente nada do que ele me disse além dele murmurando a história com a voz embargada de perfil enquanto fumava algum cigarro pomposo e fugíamos de baratas. Só sei que esse deus estava numa guerra contra outro deus ou entidade ou sei lá e por isso que ele não era amigo de fulano e ciclano, porque fulano era a reencarnação dessa outra parada aí e por aí vocês imaginam a história como quiserem. Tenho certeza que os RPGistas vão conseguir sentir a ideia melhor.
Se eu acreditei? Nem por um minuto!
Mesmo sem acreditar eu pensei que se eu ouvisse toda a história e se o tratasse como o tal deus eu ia conseguir pegar o cara, que era o que eu queria. Se ficamos ou não eu não me lembro. Do que eu me lembro desta noite é que tinha um muro absurdamente grande pra pular, eu entrei em pânico em cima do muro, não conseguia descer de jeito nenhum então ele e a outra pessoa me atiraram em cima de um monte de pipoca. É, pipoca, na porta do cemitério, ou seja, em cima de um trabalho para alguma entidade. Mas, sabe como é, quando você tá saindo com um deus não precisa se preocupar com essas coisas. Ah, eu também não sabia voltar pra casa então fiquei vagando até achar um lugar conhecido, mas parece que isso não era o tipo da coisa que me incomodava à época. Nem passear em cemitérios ou fingir acreditar nas mentiras dos homens.
Já cheguei numa idade onde eu (quase) não tenho vergonha de contar essa história. É bom nos lembrarmos de certas coisas para ver o quanto nos submetemos a situações bizarras somente pela chance de estar perto de um homem que despertou nosso interesse. O machismo é uma parada tão louca que as vezes parece até piada, mas não é piada. É piada agora que passou, mas da mesma forma que passei a noite com um deus num cemitério me submeti a situações muito piores por acreditar que o amor verdadeiro precisa que você faça sacrifícios, enfrente desafios, esteja sempre à disposição, entre outras coisas que o patriarcado nos conta.
Quando você se ver numa situação estranha, falando sobre coisas ou indo a lugares que absolutamente não te interessam ou mesmo tomando rumos na vida e tiver um homem, amor, ou relacionamento envolvido na história pare e pense: eu passaria uma noite no cemitério sozinha falando com um deus? (substitua pela situação em que você se encontra). Se a reposta for não, se você não faria isso por você, sozinha ou pelos seus próprios interesses você está fazendo isso errado. E olha que de fazer isso errado eu entendo como poucas pessoas no mundo.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Essência dos casais
Eu tentava desesperadamente convencê-lo a acordar. Essa cena se repetia todos os dias, menos naqueles poucos em que a situação se invertia e era ele a tentar me convencer de que a batalha contra o repouso - e o silêncio - deveria ser travada.
Se nos uníamos em amor, também no unia um certo desencanto pelo dia a dia. Em mim mais claro, mais vivido, mais conformado e menos conformado. Nele de uma forma quase rebelde - sua recusa permanente em despertar, fosse o que fosse que o esperasse do lado de fora da cama era um grito de inconformismo. Eu tinha que usar de violência, de violência física, verbal, até de violência emocional. Era rebelde porque não havia a clareza do que lhe causava essa repulsa. Meu ir e vir e meu devir havia me ensinado uma meia dúzia de coisas, entre elas como não morrer, ou como tentar não morrer na maior parte do tempo. Não que fosse um alento: a verdade é que morrer era meu pensamento inicial a cada e todos os dias que não tinha permissão para mergulhar indefinidamente no descanso silencioso do sono. Não houve um dia sequer que eu possa me lembrar que eu não tenha desejado a morte ao amanhecer, mas acontece que os anos se passam, a adolescência passa, os sonhos de morte deixam de ser pesadelos para se tornar mais alguém com quem divido a cama. Na cama de casal - tão nossa - nunca faltou espaço para mim, para ele e para os sonhos de morte matinais. Eu nunca havia experimentado essa sensação tão confortável de não faltar espaço na cama, mesmo em dias que eu dormira em camas muito maiores. Em parte porque nossa proximidade nunca é incômoda, em outra parte porque ainda que não tão consciente ele partilhe esses mesmo sonho de morte e vivamos uma confortável relação a três.
Dividir um segredo sombrio tem sido a essência poética de tantos e tantos casais na literatura, no cinema. De forma velada são os segredos sombrios sobre os quais nunca falamos que nos une, ainda que o lubrificante seja o mesmo que corre entre as nossas pernas. Sempre falamos sobre tudo, mas certos acordos são feitos em silêncio e se perpetuam por terem seu silêncio respeitado. O tal do diálogo, permitir ao outro que fale, que respire, tudo isso não substitui o poder de respeitar meia dúzia de silêncios consensuais. Era como se nossa pele fosse feita de um material sensível às opressões.
Enquanto tantos falavam delas as opressões em nossa carne formavam marcas e mais marcas numa dor dilacerante. Parte de mim sempre soube que essa dor é comum a maior parte da humanidade (se não a toda ela). Oprimidos e comprimidos numa realidade que não nos cabe, embalados à vácuo pelo sistema. Coformandos e conformados, todos faces de uma realidade de objetificação.
Ser humano e se sentir uma mercadoria produzida numa fábrica suja - aquela mesma que pode causar alergia, pois também processa amendoim e nozes. Essa cama partilhada - meio cama, meio redoma - era uma ilusão confortável parte do tempo, na outra parte vivíamos felizes: eu, ele e o sonho da morte. Mais ou menos em equilíbrio.
Se nos uníamos em amor, também no unia um certo desencanto pelo dia a dia. Em mim mais claro, mais vivido, mais conformado e menos conformado. Nele de uma forma quase rebelde - sua recusa permanente em despertar, fosse o que fosse que o esperasse do lado de fora da cama era um grito de inconformismo. Eu tinha que usar de violência, de violência física, verbal, até de violência emocional. Era rebelde porque não havia a clareza do que lhe causava essa repulsa. Meu ir e vir e meu devir havia me ensinado uma meia dúzia de coisas, entre elas como não morrer, ou como tentar não morrer na maior parte do tempo. Não que fosse um alento: a verdade é que morrer era meu pensamento inicial a cada e todos os dias que não tinha permissão para mergulhar indefinidamente no descanso silencioso do sono. Não houve um dia sequer que eu possa me lembrar que eu não tenha desejado a morte ao amanhecer, mas acontece que os anos se passam, a adolescência passa, os sonhos de morte deixam de ser pesadelos para se tornar mais alguém com quem divido a cama. Na cama de casal - tão nossa - nunca faltou espaço para mim, para ele e para os sonhos de morte matinais. Eu nunca havia experimentado essa sensação tão confortável de não faltar espaço na cama, mesmo em dias que eu dormira em camas muito maiores. Em parte porque nossa proximidade nunca é incômoda, em outra parte porque ainda que não tão consciente ele partilhe esses mesmo sonho de morte e vivamos uma confortável relação a três.
Dividir um segredo sombrio tem sido a essência poética de tantos e tantos casais na literatura, no cinema. De forma velada são os segredos sombrios sobre os quais nunca falamos que nos une, ainda que o lubrificante seja o mesmo que corre entre as nossas pernas. Sempre falamos sobre tudo, mas certos acordos são feitos em silêncio e se perpetuam por terem seu silêncio respeitado. O tal do diálogo, permitir ao outro que fale, que respire, tudo isso não substitui o poder de respeitar meia dúzia de silêncios consensuais. Era como se nossa pele fosse feita de um material sensível às opressões.
Enquanto tantos falavam delas as opressões em nossa carne formavam marcas e mais marcas numa dor dilacerante. Parte de mim sempre soube que essa dor é comum a maior parte da humanidade (se não a toda ela). Oprimidos e comprimidos numa realidade que não nos cabe, embalados à vácuo pelo sistema. Coformandos e conformados, todos faces de uma realidade de objetificação.
Ser humano e se sentir uma mercadoria produzida numa fábrica suja - aquela mesma que pode causar alergia, pois também processa amendoim e nozes. Essa cama partilhada - meio cama, meio redoma - era uma ilusão confortável parte do tempo, na outra parte vivíamos felizes: eu, ele e o sonho da morte. Mais ou menos em equilíbrio.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
... 2013
As vozes ecoavam pela janela enquanto em minha mente ressoavam versos de brilho, luto e desapego. Um desapego doído, quase dilacerante do corte da última membrana que me prendia a algo que fui e jamais seria. Enquanto as palavras hesitavam em fluir carecendo da lubrificação correta (que de certo modo já havia partido, então era praticamente uma luta inútil) brilhos e brocados enchiam meus olhos. Não ousaria contar quantos dias, mas eram poucos, bem poucos, bem menos de uma semana para o acontecimento.
Um pouco engraçado seria pensar o quanto nos prendemos a certos ritos, por mais pós-ritualísticos que nos pretendamos. Você finge que com você é diferente, mas com essa margem tão pequena de dias (juro, não ousaria jamais contar) os prazos e prosas se entrelaçavam ao luto e à lógica que ainda reiterava o quão sem sentido seria este sofrimento depois de mais de um mês vivendo juntos.
Consciente e plena da escolha e da felicidade que era estar ao seu lado meus maus hábitos (principalmente aquele que me prende aos sofrimentos por escolha) pareciam querer sobreviver a qualquer custo num cenário onde eles eram impossíveis. Sabe impossíveis? Impossíveis, aquelas velhas dores dos abusos e cortes e a dependência e o peso das piores escolhas. Não o sofrimento, porque este é muito muito particular, mas bem o mal, um peito quente e acolhedor, seu perolado e a certeza de que no grito e no silêncio minha mão encontraria as mãos que escolhi segurar (e que me escolheram segurar).
A febre (uma febricolazinha) persistia queimando-me as pernas e o torso. Eu caminhava pela casa (ora me arrastando, ora saltitando como baquetas de tambor) quase sempre nua-semi-nua. De seios de fora para refrescar a febre. Cobria metade do corpo, descobria metade do corpo. Se encarar o problema de peito aberto, ou fugir do problema num isolamento completo. Corria, circundava as verdade, circulava as tarefas.
A última membrana resistia, resistiria, como um pedaço de carne que não conseguimos deixar perfeito (entenda como quiser) e ao mesmo tempo se transmutava com projeções de todos os tipos. Ela era em si o luto, era a luta do luto em não se concretizar, era o medo do luto simbólico virar real. Era a latência de uma dor que todos carregamos mas que poucos ousam encarar de frente. (acho que eu também tenho medo da morte)
Um pouco engraçado seria pensar o quanto nos prendemos a certos ritos, por mais pós-ritualísticos que nos pretendamos. Você finge que com você é diferente, mas com essa margem tão pequena de dias (juro, não ousaria jamais contar) os prazos e prosas se entrelaçavam ao luto e à lógica que ainda reiterava o quão sem sentido seria este sofrimento depois de mais de um mês vivendo juntos.
Consciente e plena da escolha e da felicidade que era estar ao seu lado meus maus hábitos (principalmente aquele que me prende aos sofrimentos por escolha) pareciam querer sobreviver a qualquer custo num cenário onde eles eram impossíveis. Sabe impossíveis? Impossíveis, aquelas velhas dores dos abusos e cortes e a dependência e o peso das piores escolhas. Não o sofrimento, porque este é muito muito particular, mas bem o mal, um peito quente e acolhedor, seu perolado e a certeza de que no grito e no silêncio minha mão encontraria as mãos que escolhi segurar (e que me escolheram segurar).
A febre (uma febricolazinha) persistia queimando-me as pernas e o torso. Eu caminhava pela casa (ora me arrastando, ora saltitando como baquetas de tambor) quase sempre nua-semi-nua. De seios de fora para refrescar a febre. Cobria metade do corpo, descobria metade do corpo. Se encarar o problema de peito aberto, ou fugir do problema num isolamento completo. Corria, circundava as verdade, circulava as tarefas.
A última membrana resistia, resistiria, como um pedaço de carne que não conseguimos deixar perfeito (entenda como quiser) e ao mesmo tempo se transmutava com projeções de todos os tipos. Ela era em si o luto, era a luta do luto em não se concretizar, era o medo do luto simbólico virar real. Era a latência de uma dor que todos carregamos mas que poucos ousam encarar de frente. (acho que eu também tenho medo da morte)
Impulsos virtuais
Eu sempre dou reload no captcha, faço o caminho com menos subidas, não entro em discussões alhures e escolho a resposta mais fácil. Em tudo que não importa realmente, eu sempre escolho o caminho mais fácil. Esse, eu desconfio, seja o caminho da sabedoria. Sempre que escolhemos o mais difícil, sempre que aceitamos qualquer desafio, sempre que queremos provar pra nós mesmos que podemos fazer algo, sendo que este algo não é algo que necessitamos ou que sequer nos dá prazer, perdemos tempo, energia, vigor e a nossa existência limitada com nada.
Desconfio que deve ser difícil saber quais batalhas devem ser travadas. Profundamente difícil. E é por isso que vejo tanta gente se empenhando em coisa nenhum que o valha e tão poucas se empenhando e tudo aquilo que há de valoroso de fato. Pra elas, não pra mim, não se trata de juízo de valor, se trata de saber medir os passos, de entender quando o seu desejo, duas paixões e sua inércia. O mundo é tão maluco que eles acabam parecendo a mesma coisa e essa não distinção é uma prisão pior que as grades.
Penso sobre a liberdade, enquanto empenho sistematicamente em não terminar uma série de textos que ainda terei que entregar hoje. Escrevo aqui, como registro. Registro de um tempo, de um espaço, de uma realidade mental que é fugaz. Se me dói ver as pessoas se debaterem em suas prisões existenciais, me dói mais ainda saber que nada posso fazer por elas.
Minhas palavras encontram paredes, muros de pedra, de ilusão e ignorância e voltam letras perdidas. Sou babel e sou a Biblioteca de Alexandria.
Desconfio que deve ser difícil saber quais batalhas devem ser travadas. Profundamente difícil. E é por isso que vejo tanta gente se empenhando em coisa nenhum que o valha e tão poucas se empenhando e tudo aquilo que há de valoroso de fato. Pra elas, não pra mim, não se trata de juízo de valor, se trata de saber medir os passos, de entender quando o seu desejo, duas paixões e sua inércia. O mundo é tão maluco que eles acabam parecendo a mesma coisa e essa não distinção é uma prisão pior que as grades.
Penso sobre a liberdade, enquanto empenho sistematicamente em não terminar uma série de textos que ainda terei que entregar hoje. Escrevo aqui, como registro. Registro de um tempo, de um espaço, de uma realidade mental que é fugaz. Se me dói ver as pessoas se debaterem em suas prisões existenciais, me dói mais ainda saber que nada posso fazer por elas.
Minhas palavras encontram paredes, muros de pedra, de ilusão e ignorância e voltam letras perdidas. Sou babel e sou a Biblioteca de Alexandria.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
2013
... em 2023
ficarei em êxtase ao lembrar que em junho de 2013, quando a nossa revolução começou a ser construída eu estava ensandecida! Entre os dias de luta se intercalava um doce formigamento no estômago, de quem deixou a segurança do seu mundo por amor, de novo. Era junho de 2013, milhares (ou milhões?) estavam nas ruas. Nós estávamos nas ruas e nos casando. Da forma mais linda e libertária e revolucionária que poderíamos (mal sabíamos que inventaríamos a cada dia uma nova revolução em nosso amor, sempre avançando rumo ao socialismo e à liberdade).
lembrarei daquela noite, há 10 anos atrás, quando completamos seis meses da nossa primeira pequena (gigantesca revolução) quando suas palavras me moveram para outro horizonte e nós demos o primeiro e derradeiro beijo. Naquela noite, a que completamos seis meses, eu estava deitada nua na cama, com a mão sobre o seio esquerdo, o direito deslizando sobre a cama, enquanto eu observava seu corpo nu, lindo, uma canção de prazer e luta. Do lado direito do seu torso repousava uma resistente gota de porra, aquela que eu não pude sorver (lembrarei também do gosto exato que ela tinha, diferente de sempre, era salgada). E de como deixei que você dormisse com ela, como se aquela ínfima gota fosse o registro em seu corpo do nosso amor.
sentirei aquelas mesmas dores no corpo que se seguiam a cada ato e do conforto pleno que existia em seus braços. Um conforto tão pleno que, tanto quanto me acalentava, me prendia a esta sensação. Me acostumava mal.
(...)
sexta-feira, 8 de março de 2013
Mulherzinhas (I)
Titica, de pequetita e de titica de galinha
esse negócio de dizer da gente, mulher, no diminutivo é uma baita do afronta
a gente nasce princesinha e vai virando uma gracinha
e de gracinha em gracinha
é que nos fazem coitadinhas.
Eu, de mim, quero é ser ão.
Pezinhos, boquinha, mãozinha, manequinzinho, tudo miudinho e garboso
esmagando nossos cerebrozinhos
para que nossos olhinhos não vejam
e nossas mãos não toquem
a verdade que emana.
Eu, por nós, quero ser ã.
Cabe em um abraço, precisa de um, incompletas e frágeis bonequinhas
de tanto e tanto ouvir essas historinhas
a gente vai se convencendo
até que se fica tão pequena
mas tão, tão miudinha
que qualquer peteleco e chute
esmaga nossa ternurinha.
Nós, por toda gente, precisamos ser.
esse negócio de dizer da gente, mulher, no diminutivo é uma baita do afronta
a gente nasce princesinha e vai virando uma gracinha
e de gracinha em gracinha
é que nos fazem coitadinhas.
Eu, de mim, quero é ser ão.
Pezinhos, boquinha, mãozinha, manequinzinho, tudo miudinho e garboso
esmagando nossos cerebrozinhos
para que nossos olhinhos não vejam
e nossas mãos não toquem
a verdade que emana.
Eu, por nós, quero ser ã.
Cabe em um abraço, precisa de um, incompletas e frágeis bonequinhas
de tanto e tanto ouvir essas historinhas
a gente vai se convencendo
até que se fica tão pequena
mas tão, tão miudinha
que qualquer peteleco e chute
esmaga nossa ternurinha.
Nós, por toda gente, precisamos ser.
Assinar:
Postagens (Atom)
